terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Rifas de Natal

Abri os olhos pela força das focinhadas que uma certa bola de pelo branco insistia em dar-me no braço gelado que pendia da cama. O resto do corpo teimava em manter-se agarrado ao sono que ainda habitava o calor do edredon de penas. Lá estiquei o braço mais desperto para o telemóvel: 8:15 da manhã... "Ainda é cedo Pipoca, está um gelo lá fora...", mas ela não queria saber disso para nada. Nunca quer. E mesmo sabendo que o mais provável era chegar lá a baixo e nenhuma das cadelas querer pisar a terra por causa da geada, lá me arrastei do vale dos lençóis celestiais para fora e enfiei pelo corpo a baixo várias camadas de peças de roupa que agarrei ao acaso do armário. Quando cheguei à cozinha sou recebida por uma verdadeira festa sob a forma de uma bola de pelo preto. Estranhei tanta efusividade vinda daquele bicho... "Já fizeste asneira não foi Amora?". Claro que sim. Antes que a asneira se repetisse pus as trelas nas cadelas e rapidamente as levei escada fora.
Abri a porta da rua para que uma chapada de ar frio me acertasse em cheio no pouco de cara que se podia vislumbrar entre barrete e cachecol. Violenta o suficiente para abandonar o estado de piloto automático.
A meio da curta travessia do passeio, um chilreio corta o silêncio matinal de uma zona mergulhada no estado de graça das férias escolares. Alto. Demasiado alto para ser longe. E vinha do chão. E foi assim que, levando os olhos ao nível dos meus sapatos dou de caras com um pequeno pássaro, com umas asas amarelas e pretas e uma mancha cor de laranja a circundar o bico. A dita ave piava enquanto olhava para mim, sem se afastar, e bicava ocasionalmente numa ou noutra migalha de pão que, por razões que desconheço, tinha ido parar à calçada. Comportamento estranho para um pássaro tão pequeno, num território de gatos selvagens e pior ainda, considerando que eu estava acompanhada de duas "feras" que, pelo menos para ele, ainda são grandes. Felizmente as referidas feras decidiram ignorá-lo e puxaram-me em direcção à relva (que, tal como previsto, não se revelou muito convidativa às patinhas delicadas das princesas).
Quando voltámos o pássaro ainda lá estava, desta vez acompanhado de um pardal. Assim que me viu voltou a chilrear entusiasticamente subindo e descendo em voo à volta das minhas pernas, nunca ultrapassando o nível dos joelhos. Assim que me viu, o pardal fugiu. Por esta altura ocorreu-me que provavelmente aquela era uma ave de criação que teria fugido. Ao chegar ao segundo andar que habito, a minha mãe aprovou a minha prévia nota mental para tentar apanhar o pássaro, pelo que me armei de uma manta leve e em breve voltava a enfrentar o frio glacial, desta vez menos invasivo. Não me ofereceu grande resistência. Não tentou voar para longe sequer. E em menos de 1 minuto a manta tinha-o caçado.
Depois de trepar novamente a escadaria (para o elevador não acordar os vizinhos), desta vez com um pequeno coração que se fazia sentir rápido entre as minhas mãos, chegámos à conclusão de que não tínhamos onde o pôr. Lá se improvisou uma gaiola com duas saladeiras (ou escorredores da massa, conforme preferirem) presas com molas de roupa, com água e comida no interior. Por esta altura ainda se discutia se o pássaro seria selvagem ou não. O pássaro demonstrava-se bastante sossegado e de imediato fez bom uso da comida e da água... no entanto decidimos que o deveriamos soltar quando começasse a dar o sol na "varanda da frente". Traçámos então um plano brilhante de libertação que consistia pôr comida no chão da sala, em frente às portas da janela da varanda e soltá-lo aí, antes de abrir as referidas portas. Isto para não ser uma mudança tão brusca (hahahahahaaaa). Resultado: mal o libertá-mos das saladeiras, o pássaro voou para o chão e desatou a devorar alegremente a alpista por lá espalhada, enquanto respondia aos nossos assobios. Sentei-me no chão mesmo ao lado dele, sem que isso lhe representasse qualquer tipo de estorvo ou preocupação. A teoria de que talvez fosse selvagem caíu por terra.
A minha mãe saiu para lhe comprar uma gaiola. O tempo que esteve ausente foi o suficiente para o pássaro esvoaçar pela sala, poisando na árvore de Natal e em todos os arranjos de abeto por lá espalhados. Quando a gaiola chegou tive de o ir buscar a cima do estore (um belo poleiro, por sinal). Já lá dentro não perdeu tempo a encontrar o bebedouro e comedouro. Era como se sempre lá tivesse vivido. Passou a tarde tranquilamente ao sol, a debicar numa maçã e a assobiar a quem passava. Agora dorme com a cabeça debaixo da asa.

E eis o 3º elemento de estimação cá da casa:

(o bicho no meio dos arranjos)


Ao que consegui apurar após alguma pesquisa, é o resultado do cruzamento entre um canário e um pintassilgo. Este tipo de junção de espécies é comum, uma vez que é frequente os criadores procurarem criar a melhor voz possível.
Chama-se Brinde e quero acreditar que é o nosso milagre de Natal.

6 comentários:

Zé disse...

Já tinha sabido da Notícia!!! Mas contado assim, tem outro Sabor!!! Muitos Beijos à Melhor Enfermeira, Sobrinha e Ouvinte do Mundo!!! <3

Joana Pantufas disse...

Ahahah adorei a descrição :D

Anónimo disse...

O Dom da escrita continua intacto.
Excelente descrição e excelente história :)

Ordinary people disse...

Tem um ar distinto o bicho!xD

Rita Graça disse...

Que bem! :) Tens de ir fazendo updates da relação entre o bicho novo e as cadelas. E tirar mil fotos fofas e espalhar pela internet.

Por cá, continuo a olhar pela janela à espera que os 0ºC de temperatura máxima às 13h se transformem em neve quando em contacto com água. *figas*

Anónimo disse...

ohhh... qual conto de Natal essa tua descrição. Espero que se dê bem por ai. Certamente vai ser bem tratado =)
Beijinhos


Sandra