Deixo Siena daqui a menos de dois dias. Chegam ao fim os cinco meses em Itália e arrepio-me ao ver a minha vida arrumada em caixotes, outra vez.
Hoje fui a uma festa de despedida de alguém que ainda nem sequer sabe quando volta para casa. Pouco importa. O tema da festa era "bad taste" o que foi traduzido para raparigas vestidas de white trash dos 80's e rapazes maquilhados com plumas em fitinhas presas no cabelo. No meu braço esquerdo tenho "tatuado" com eyeliner "It's business time!". Podíamos reflectir sobre o significado profundo desta frase mas a morada que tenho escrita no meu braço direito rouba a atenção.
Conheci um couchsurfer que estava em casa de um italiano que era amigo de um erasmus. De boato em boata, eis que toda a gente pensa que ele é erasmus também. Mais uma vez, pouco importa. Fiquei de mandar postais a meio mundo. Acho que é um momento saído de ficção científica quando tenho a morada de alguém, mas não o e-mail e, até segundos antes, nem sequer o nome.
Hoje, ao entrar na cantina, três indivíduos possuídos de uma lata descomunal (ou de outro bicho qualquer) apontaram-me o dedo e perguntaram "USA?".
- Portogallo.- Portogallo! Obrigado! Linda! Sono andato a Lisabona, due anni fa.
- Io sono di Coimbra.
- Coimbra?
- Centro.
- Ah, ma perché tutti i portoghesi sono di Coimbra?
- Non so...
E dirijo-me às massas, em jeito de quem foge de uma conversa que já se repetiu mil vezes nos últimos cinco meses. Depois de almoço cruzo-me com eles a caminho de casa. Um grita "Portogallo", três metros depois outro grita "gostosa!". Ri-me muito sozinha.
Os últimos dias têm sido um agregado magnífico de momentos inesquecíveis. Não, ainda não estou mentalizada de que acabou. Não, ainda não fiz a mala. Não, ainda não tratei das burocracias. Não, ainda não me despedi dos sítios todos e duvido que tenha tempo para o fazer.
Hoje percebi que terça-feira vou deixar estas ruas sem uma data marcada para o regresso. Vou deixar de andar sozinha na rua com a certeza de que nada de mau me pode acontecer. Vou perder o acesso a locais que pensava que só existiam em postais e posters de agências de viagens. Vou voltar para uma cidade barulhenta, suja, até certo ponto perigosa e, ainda que querida, não é linda. Não como esta.
Hoje percebi que terça-feira vou deixar estas ruas sem uma data marcada para o regresso. Vou deixar de andar sozinha na rua com a certeza de que nada de mau me pode acontecer. Vou perder o acesso a locais que pensava que só existiam em postais e posters de agências de viagens. Vou voltar para uma cidade barulhenta, suja, até certo ponto perigosa e, ainda que querida, não é linda. Não como esta.
Hoje percebi também que vou ter de voltar aqui, um dia, como quem reencontra um irmão perdido. Não esqueço as pessoas que conheci mas esta cidade é a minha cidade, onde me sinto em casa em todo o lado, que explorei sozinha e que me enche de paz de espírito. E, por contraste, Coimbra cada vez me parece menos apelativa e quanto mais penso nisso mais quero sair de lá, o quanto antes. Para longe, para outro país, para outro continente...
Ando há três dias a dizer adeus. Já gosto pouco de me ter de despedir das pessoas, ter de fazê-lo todos os dias, argh. E depois acaba, ainda mais rápido do que como começou, como se fosse um sonho concebido três segundos antes de acordar. Parto com a certeza de que vou ter saudades de tudo e de todos e sabendo que vou sofrer do síndrome do emigrante, que introduz em todas as conversas a expressão "lá na França" (substituir França por Siena).
Mas está na hora de voltar, não é? Está na hora de estar com amigos e família que não vejo desde Setembro. Está na hora de ver o mar e cheirar a maresia. Está na hora de conduzir, sozinha, com a minha música, em direcção a um balde de pipocas com caramelo da Lusomundo. É hora de ver se a minha cadela já rebola mais do que anda, como alguns boatos indicam. Está na altura de cumprir a minha promessa de ir a Vila Real e visitar a capital europeia da cultura 2012. Está na hora de me despedir das minhas emigrantes. Está na hora de ir viver sozinha e descrever neste canto novas aventuras.
Não sei se sofro do síndrome caloira, apaixonada pela cidade nova. Talvez seja o síndrome Erasmus. Either way, vocês não têm ideia de como esta cidade é perfeita.
1 comentário:
Coimbra é gira enquanto se é estudante... depois é só um espaço de outros cheia de memórias de rotinas certas que já não existem. Para cada espaço uma história, daquelas de que se fazem as saudades. E aquela ponta de inveja daqueles fedelhos de capa e batina que enchem a boca com "Coimbra é nossa", quando ela foi nossa antes.
E por isso é uma boa cidade para se deixar para traz, a bom tempo. Faz parte do passado. Um ritual simbólico de passagem para seguir em frente.
São só 6 meses, e depois o mundo vai estar assustadoramente aberto aos teus pés. Vão haver alturas em que se vai parecer com o contrário, em que o Mundo se torna num lugar escuro e mau e a banda sonora é a "22" da Lilly Allen. Mas de cada vez em que puxares de toda a tua capacidade e ver e até criar luz, ainda que com um pequeno fósforo, vai saber a lapas! (que, for the record, sabem MESMO bem :p). Tá claro que cá estarei para te mandar umas faíscas de vez em quando, tal como tu tens mandado a mim ;)
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