sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Ser Erasmus

Tenho vivido os últimos dias com uma certa irritação e o pensamento "morram todos" só dá folga quando estou a embrulhar presentes, coisa que não posso fazer continuamente porque não tenho assim tantos presentes para oferecer. 
Hoje de manhã fui até ao café onde sei que deixei as minhas luvas novas. Disseram-me que não, não as tinham encontrado. Visto que as luvas foram um presente fiquei mesmo aborrecida com esta situação, sentimento que não melhorou na meia hora que estive à espera nos correios para comprar selos. 
Dirigi-me à cantina, já um pouco fora de horas, e sentei-me a almoçar, sozinha. Reparei que me tinha esquecido de levar guardanapos mas deixei-me estar. Logo a seguir um rapaz senta-se na mesma mesa que eu, apesar de estarem quase todas vazias, outra vez. Também ele se tinha esquecido do guardanapo e quando se levantou para ir buscar um perguntou-me se eu queria um. Et voilá, assim começa mais um momento épico. Depois de saber de onde eu era perguntou-me pela economia portuguesa. Discutimos a política italiana, ele disse que estudava Ciência Política, eu puxei do pouco que sei de italiano para manter a conversa. Ele quer fazer erasmus e estava a pensar ir para Espanha ou Portugal e, sem querer, acho que o convenci a ir para Coimbra. Ele vive em Itália desde os 17 anos, é originário do Senegal.
Entretanto chegaram dois colegas dele, um casal de italianos que se não estão casados para lá caminham. O rapaz é espetacular e inteligente. Estuda Literatura e a rapariga estuda Antropologia. Ela já esteve em Portugal, no Porto, Lisboa e Coimbra e perguntou-me se usamos o traje todos os dias. Tive uma discussão sobre Darwin, Galileo e a igreja com o rapaz. 
Fomos os últimos a sair da cantina, quase às 15h, mas ninguém veio ralhar connosco porque eles conhecem todas as pessoas que trabalham lá. A certa altura o rapaz do Senegal disse "o Federico é extremamente inteligente. São os dois muito inteligentes. Não gosto de pessoas estúpidas, não gosto de ter de andar com pessoas de arrasto". O Federico ouviu e disse "então mas tu estás em Ciência Política... Vais ter de lidar com muitos estúpidos na tua vida..." e a seriedade da conversa foi-se.
Depois fomos até um café. Por esta altura o meu relógio já marcava as 15h30. A Erica pagou o meu café e cada um de nós foi à sua vida. Ficou um convite para uma ida ao teatro, um jantar com ementa típica do Senegal e um "adeus, vemo-nos na próxima ida à cantina".
Vários elogios ao meu italiano depois sinto que ainda está longe de ser bom mas percebi que consigo ter uma conversa minimamente decente com as pessoas e isso deu-me um bocadinho de alento. O meu português está cada vez pior e perdi a total confiança no que escrevo, ao ponto de instalar um corrector automático no firefox. Idem aspas para o inglês. Ao menos que o italiano melhore... 

Esta é a minha ideia de Erasmus. Todas as festas e saídas e noitadas não se inserem de todo no tipo de experiências que quero viver sob o carimbo "erasmus". Este tipo de encontros completamente aleatórios e inesperados são os momentos de que vou falar quando voltar para casa. 
Troco todos os momentos com espanhóis bêbados em random festas por mais algumas situações únicas na cantina.
Mas isto sou só eu que tenho 22 anos mas penso como se tivesse 50. 

E Zé, um dos indivíduos disse-me para procurar emprego em Inglaterra ou E.U.A. O outro disse "tens de ir para Inglaterra, terra do Darwin!". Põe aí mais dois tracinhos na coluna dos prós de Inglaterra.

2 comentários:

UmJosé disse...

check check!

Anónimo disse...

Acho essa tua maneira de var o mundo como se tivesses 50 anos, absolutamente formidável! É uma das várias características que te tornam única (além de gostares de cogumelos e musgos hahaha =p)! esses encontros random devem ser de facto o que mais vale a pena =) beijos!

Sandra